
Lá estava eu no auge de meus 14 anos bem perto de fazer 15. Era uma quinta-feira ensolarada, porém era um dia atípico no meu colégio e todos estavam eufóricos; ao invés de termos a última aula do dia nós teríamos algo parecido com uma palestra no teatro da Escola.
Eu não sabia o que estava acontecendo e tão pouco me importava. Achava legal e estava contente com uma aula diferente, mas não sabia sobre o que seria e nem quem seria o palestrante.
Eu peguei minha bolsa, meus materiais e junto com minhas amigas fomos para o teatro. Lembro-me muito bem que sentei na segunda fileira do canto direito, ou seja, eu ia ver perfeitamente o palestrante dalí.
Conversando com algumas meninas, momentos antes da palestra começar, soube que o palestrante era um cartunista famoso e obviamente me empolguei quando soube. Fiquei muito ansiosa quando ele apareceu de costas, ainda falando com nossa coordenadora.
De repente ele virou e, ao invés de subir para o palco, ficou na platéia com o microfone na mão. Naquele momento a única coisa que veio na minha cabeça foi: "Lindo!". Ele era, na minha concepção ingênua, o homem mais maravilhoso que já havia visto na vida.
Fiquei fixamente olhando, sem conseguir desviar o foco sequer um minuto enquanto ele gesticulava e conversava brincando conosco. Ele sorria com um brilho nos olhos enquanto falava sobre o prazer de desenhar, de fazer o que gosta e da necessidade de conscientizar as pessoas através de seu trabalho. E quanto mais ele falava mais encantada eu ficava...
Ele era tudo o que eu, uma garota madura de 14 anos (pelo menos era assim que eu me considerava), havia sonhado: jovem, idealizador, bonito, maduro e inteligente. O que mais eu poderia querer?
Quando a palestra terminou eu não resisti ao impulso de me aproximar e senti uma raiva dentro de mim quando vi que outras meninas também não haviam resistido. Eu fulminei cada uma delas com meu olhar discreto enquanto eu ainda o via sorrir e falar com uma simplicidade encantadora.
De repente, eu percebi estarrecida que eu estava tendo o meu primeiro amor platônico. Nunca antes havia me sentido tão encantada por alguém. Quando a ficha caiu eu me senti imatura...
Eu sempre havia dito que amor platônico não existia, que era uma ilusão criada por uma pessoa infântil que ainda sonhava com contos-de-fada. Para a minha surpresa o feitiço havia virado contra o feiticeiro. Eu, na verdade, era a pessoa infantil que ainda sonhava com contos-de-fada...
Me envergonhei, mas continuei olhando fixamente para ele enquanto falava algumas poucas vezes sobre a palestra. Ele, de repente, deu um sorriso aberto para mim e perguntou-me se eu ia para a Bienal do Livro. Eu senti meu coração disparar e minhas bochechas ruborizarem quando percebi que a pergunta era direcionada a minha pessoa. Eu respondi um tímido "sim" e ele sorriu mais abertamente ainda mandando-me procurá-lo em seu estande. Eu só pude sorrir de volta, abobalhada, enquanto sentia uma felicidade sem tamanho crescer dentro do peito. Eu sempre havia amado a Bienal do Livro e naquele momento havia surgido mais um motivo para amá-la ainda mais.
Saí do teatro com uma cara de quem havia ganhado na Mega Sena. Eu contei para as minhas amigas e elas riram me dizendo que não o havim achado tão incrível assim, mas eu não me importei. Ele era, para mim, maravilhoso.
Naquele mesmo dia, descobri que ele era o tio de uma das minhas amigas com quem eu conversava as vezes. Descobri, também, que ele tinha 24 anos e para mim foi um choque. Ele era jovem, mas definitivamente não para a minha pessoa. Eu tinha apenas 14 anos e ainda nem havia sequer entrado no Ensino Médio. A minha cabeça, naquele instante, sentenciou que ele nunca ia me ver como mulher.
Fiquei desconsolada e decidi manter, de fato, um amor platônico: olhando-o e admirando-o a distância até crescer e ter meus 18 anos quando ele, finalmente, veria a mulher que eu havia me transformado. Aquele era meu plano e com o tempo foi esquecido. Continuei a ir para a Bienal do Livro, a vê-lo e conversar algumas poucas vezes com ele, mesmo quando eu tinha que lembrá-lo de onde ele me conhecia...
Hoje, eu tenho 18 anos e descobri, por coincidência, que aquele meu primeiro amor platônico está namorando e teve um filho neste mesmo ano. Não pude deixar de sentir uma dorzinha e, ao mesmo tempo, uma nostalgia gostosa quando eu lembrei do meu inocente plano de quatro anos atrás e de como o mundo sempre dá voltas...
*Quadro do início do post de Josephine Wall - Prelude to a Kiss